An older woman in her seventies and a grown grandchild in family dining room with a crocheted tablecloth

prenda para a avó de 80 anos: a canção que os netos lhe fizeram

Por Songive songwriting team — Compositora na equipa da Songive.

Atualizado 8 min de leituraPara quem

Sete netos espalhados por Lisboa, Braga e Paris queriam algo para os 80 anos da avó que não fosse o lenço e o envelope. Juntaram as frases dela, o arroz de cabidela e a cadeira à porta numa canção de dois minutos. Aqui está a história toda, com as escolhas explicadas.

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Uma canção que fizemos de verdade, com o nome da pessoa lá dentro — ouça:
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Uma boa prenda para a avó de 80 anos é uma canção feita das palavras que ela repete há décadas — o «vai com Deus» à porta, o «come mais um bocadinho» à mesa — cantada com o nome dela. É o que sete netos fizeram em vez do lenço do costume, e é a história que vamos contar, do primeiro grupo de WhatsApp ao almoço no salão da junta.

O que é: uma canção curta e original, escrita a partir do que uma família sabe sobre a avó e entregue pronta a ouvir. Não é uma versão de um tema conhecido nem um postal com música por baixo. É uma letra nova, com o nome e as frases dela, à volta de dois minutos.

Como começou esta prenda para a avó de 80 anos?

Começou com uma neta cansada de catálogos. Faltavam seis semanas para os 80 anos da avó, a família tinha-se habituado a oferecer o mesmo lenço e o mesmo envelope, e ninguém estava satisfeito. A avó mora numa aldeia do Minho, daquelas em que a missa de domingo ainda marca o relógio da semana. Os sete netos estão espalhados: três em Lisboa, dois em Braga, um em Coimbra e uma em Paris, que só vem no Natal e na Páscoa.

A neta de Lisboa abriu um grupo só com os netos — sem a mãe, sem as tias, para a surpresa aguentar. O título era simples: «os 80 da avó». A primeira mensagem dela foi uma pergunta que resolveu tudo: «o que é que a avó diz que mais nenhuma avó diz?»

O que é que os netos juntaram no grupo?

Juntaram frases, cheiros e um móvel. Durante dez dias o grupo encheu-se, e foi daí que saiu quase toda a canção.

As expressões vieram primeiro. O «vai com Deus» de cada vez que alguém sai pelo portão. O «come mais um bocadinho» que não aceita não. O «então, filho» com que atende o telemóvel, mesmo quando é a neta a ligar. Alguém lembrou-se de que ela chama «os meus» a todos os netos juntos, e isso ficou.

Depois veio a cozinha. O arroz de cabidela que só ela faz bem na aldeia inteira, a sopa que está sempre ao lume, a tigela extra «para quem aparecer». E veio a imagem que todos reconheceram sem combinar: a cadeira à porta, onde a avó se senta a esperar a carrinha dos filhos ao fim de semana, muito antes da hora.

Houve uma discussão. O avô morreu há nove anos, e metade do grupo queria mencioná-lo, a outra metade tinha medo de estragar a festa com tristeza. Essa decisão coube-nos ajudar a tomar.

Que escolhas fizemos com o que eles mandaram?

Fizemos três, e cada uma mudou a canção. Quando um conjunto de notas destas chega à nossa mesa, o nosso trabalho é escolher o que canta e deixar de fora o que só interessa à família.

O nome e o tratamento. Ela trata-se por avó, nunca por «vó» nem nada abreviado. Pusemos o nome próprio dela uma vez, no sítio em que a canção abranda, e «a nossa avó» no resto. Soa a como os netos falam dela, não a como um postal fala de uma senhora idosa.

O avô. Resolvemos a discussão com uma linha, não com um verso inteiro. A canção diz que a cadeira à porta já foi de dois, agora é de um, e segue. Chega para quem percebe e não pesa sobre a festa. A família depois disse-nos que foi exatamente onde a avó parou de sorrir e começou a limpar os olhos.

O tom. Nada de solenidade sobre a idade. Os 80 aparecem como números para gabar, não para lamentar. O refrão volta ao «come mais um bocadinho», porque é a frase que a resume melhor do que qualquer elogio.

Se quiser ouvir o registo a que chegámos, a canção do nosso exemplo aqui em baixo segue a mesma ideia: calma, com o nome lá dentro, do género que uma pessoa mais velha ouve sem estranhar. É folk, voz e viola, do tipo que cabe num salão sem aparelhagem a sério.

Como é que isto chega até si, em três passos

  1. Escreve um texto curto sobre a pessoa. Os netos juntaram as frases num só parágrafo e enviaram — não precisaram de saber nada de música. Bastou dizer quem é a avó, o que diz e do que gosta. É o mesmo que faria ao começar a sua canção.
  2. Recebe a letra. Devolvemos uma letra com as frases dela reconhecíveis à primeira leitura. A neta de Paris leu por chamada ao resto do grupo e aprovaram com uma só alteração: trocar «Minho» por «a aldeia», porque é assim que a avó lhe chama.
  3. Recebe a canção pronta. Em pouco tempo chega a gravação, à volta de dois minutos, pronta a pôr a tocar. Eles passaram-na do telemóvel para uma coluna pequena e testaram-na na véspera, com os phones, para ninguém ouvir antes do tempo.

Como é que uma canção se compara com as prendas do costume?

Comparada com o lenço, o envelope ou uma compilação de músicas antigas, a canção é a única feita de raiz à volta de quem a recebe. A tabela mostra a diferença.

Opção Feita sobre ela Nome e frases dela Pronta em pouco tempo Serve para tocar na festa
Songive Sim, de raiz Sim Sim Sim
Songfinch Sim Sim Mais demorado Sim
Suno (sozinho) Depende de si Só se souber escrever Sim Variável
Compilação de fados antigos Não Não Sim Sim, mas não é dela
Lenço e envelope Não Não Sim Não

Como correu o almoço?

Correu melhor do que o grupo esperava. Houve missa de manhã, como em qualquer domingo grande, e depois o almoço no salão da junta, com cinquenta pessoas, mesas compridas e o arroz de cabidela a sério.

Tocaram a canção antes do bolo. A neta de Paris estava por chamada no tablet apoiado numa cadeira, para também ela ver a cara da avó. A avó percebeu que era dela à terceira palavra. Riu-se no «come mais um bocadinho», parou na linha da cadeira, e no fim só disse «ai, os meus», que era exatamente a frase que lhe tínhamos devolvido sem ela saber.

O que pôr no texto sobre ela

  1. As frases que só ela diz. Escreva as palavras tal e qual, com o sotaque se houver. «Vai com Deus», «então, filho», o nome com que trata o grupo todo. São elas que fazem a avó reconhecer-se à primeira audição.
  2. A cozinha e a mesa. O prato que ninguém faz como ela, o que está sempre ao lume, o hábito de pôr mais um lugar. «O arroz de cabidela de domingo» diz mais do que «ela cozinha bem».
  3. Um gesto de todos os dias. A cadeira à porta à espera da carrinha, a horta, o terço ao fim da tarde. Um gesto concreto pinta a pessoa inteira numa linha.
  4. O que decidir sobre quem já partiu. Diga-nos se quer mencionar o avô e com que peso. Uma linha discreta homenageia sem transformar a festa num velório.

Perguntas frequentes

Quanto tempo demora a receber a canção para os 80 anos?▾

Chega em pouco tempo, muito dentro das semanas que normalmente antecedem um almoço de aniversário. Os netos desta história tinham seis semanas de margem e sobrou-lhes tempo para testar a gravação na véspera, com phones, para ninguém ouvir antes da festa.

E se os netos vivem longe uns dos outros?▾

A distância não atrapalha nada. Toda a recolha desta canção foi feita num grupo de telemóvel, com netos em Lisboa, Braga, Coimbra e Paris, e a letra foi aprovada por chamada. Só precisa de alguém que junte as mensagens num texto e o envie.

Devemos mencionar o avô que já faleceu?▾

Pode, se o fizer com medida. Nesta história resolvemos com uma única linha sobre a cadeira à porta que já foi de dois, o suficiente para quem percebe sem pesar sobre o almoço. Diga-nos a sua preferência e o peso que quer dar.

A avó vai perceber que a canção é sobre ela?▾

Sim, normalmente à terceira palavra. Quando a letra traz as frases que a pessoa repete há décadas e o nome dela, o reconhecimento é imediato. A avó desta história percebeu antes do refrão e respondeu com a mesma expressão que lhe tínhamos devolvido.

Que estilo de música serve melhor para uma pessoa mais velha?▾

Um registo calmo de voz e viola costuma assentar bem, do género da canção do nosso exemplo. É o tipo de som que uma pessoa de 80 anos ouve sem estranhar e que cabe num salão sem precisar de aparelhagem a sério.