One person alone at a kitchen table, an old photograph propped in front of them in grandmother's kitchen in winter

homenagem à avó falecida: uma canção para o Dia de Todos os Santos

Por Tiago Ferreira — Compositora na equipa da Songive.

Atualizado 8 min de leituraOcasiões

No 1 de Novembro as famílias juntam-se depois do cemitério e alguém diz sempre «a avó fazia isto melhor». Uma homenagem à avó falecida em canção guarda a voz dela à mesa sem que ninguém tenha de fazer um discurso. É para quem fica.

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Uma canção que fizemos de verdade, com o nome da pessoa lá dentro — ouça:
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Uma homenagem à avó falecida em canção é uma gravação curta, de cerca de dois minutos, feita a partir das memórias que a família tem dela — o nome, as expressões, as receitas, a maneira de pôr a mesa. Serve para o almoço do Dia de Todos os Santos ou para enviar aos primos que não puderam vir. Não é uma prenda no sentido habitual. É para os vivos.

O que é: uma canção breve, com o nome da avó e os pormenores que só a família conhece, feita para ser ouvida à mesa, no telemóvel, no carro a caminho do cemitério — e não para ser tocada junto à campa.

Como é vivido o 1 de Novembro em Portugal?

Em Portugal, o Dia de Todos os Santos começa de manhã no cemitério e acaba quase sempre à volta de uma mesa. Limpa-se a campa, trocam-se as flores murchas por crisântemos, acende-se a vela. Há quem reze, há quem fique calado. As crianças correm por entre as sepulturas sem perceber bem porquê, e os mais velhos reconhecem nomes que já ninguém visita.

Depois vem o almoço. É aí que a avó volta a entrar na conversa. Alguém prova a sopa e diz «a avó fazia isto melhor». Conta-se outra vez a história do bacalhau que ela nunca deixava ninguém temperar. Lembra-se a expressão que ela repetia e que agora toda a gente imita. É um momento morno, meio a rir meio com os olhos a arder, e passa depressa.

Algumas datas acompanham estes dias:

  • O cemitério de manhã, com os crisântemos e as velas, antes de a família se reunir para comer.
  • O Pão por Deus, quando as crianças ainda batem às portas a pedir, uma tradição que em muitas terras vive ao lado do 1 de Novembro.
  • Os Fiéis Defuntos, a 2 de Novembro, o dia em que a Igreja reza por todos os que partiram.
  • A missa de sétimo dia e a missa de aniversário, que marcam o luto num calendário que a família conhece de cor.
  • As receitas dela, que uma filha ou uma neta tenta repetir e nunca fica igual.
  • As expressões que ficaram na boca de toda a gente sem ninguém dar por isso.
  • As fotografias que saem da gaveta uma vez por ano e correm a mesa.
  • Os primos que não vieram, a quem se manda uma mensagem a dizer «faltaste».

Porque é que uma canção cabe neste dia?

Uma canção cabe neste dia porque diz o que ninguém à mesa consegue dizer sem se enganar na voz. Um discurso de homenagem é difícil. Começa-se bem e no meio alguém se cala. A canção faz esse trabalho de uma vez, e fica — pode ouvir-se outra vez para o ano, pode ir no telemóvel para os netos que são pequenos de mais para se lembrarem dela.

A canção personalizada como prenda costuma ser pensada para aniversários e casamentos. Aqui o registo é outro. Não há festa, há memória. Mas o mecanismo é o mesmo: parte-se das pequenas coisas verdadeiras e constrói-se à volta delas. Já escrevemos sobre este mesmo dia e a família, e a ideia volta sempre ao mesmo ponto — é para quem fica.

A canção que deixámos aqui em baixo é um bom exemplo do tom. Foi feita para uma mãe, com o nome dela lá dentro, e tem exactamente esta mistura de ternura calma e pormenor concreto que funciona numa homenagem. Ouça-a a pensar na sua avó e perceberá o registo.

Como se faz, do seu lado?

Do seu lado são três passos simples, e nenhum deles exige que saiba música. Começa no formulário para criar a canção e acaba com um ficheiro no telemóvel.

  1. Escreve um pequeno retrato dela. Numa caixa de texto conta quem foi a avó: o nome por que lhe chamavam, duas ou três coisas que ela dizia, o prato que era dela, o lugar onde se sentava. Por exemplo: «A avó Lurdes, da Beira, que fazia arroz-doce com casca de limão e dizia sempre que a gente comia pouco.»

  2. Recebe a letra para ler. Antes de haver canção, vê o texto escrito. É o momento de corrigir — tirar o que não soa a ela, acrescentar a expressão que faltou, mudar um nome. Uma família trocou «era a nossa rainha» por «mandava na cozinha e em nós todos», que era mais verdade e fez toda a gente sorrir.

  3. Recebe a canção pronta. Chega uma gravação de cerca de dois minutos, com o nome dela cantado, pronta a ouvir no almoço ou a enviar aos que faltaram. Fica guardada no telemóvel para o ano que vem, quando a mesa se juntar outra vez.

Em que é que isto é diferente das outras opções?

�A diferença está no equilíbrio entre ser feita à medida da avó e estar pronta a tempo do dia 1. Uma versão de um músico amigo é bonita mas demora e depende de agenda. Uma montagem de fotografias com uma música qualquer por trás repete-se em todas as famílias. Uma playlist das canções que ela gostava é fácil mas não fala dela. Um texto escrito à mão é honesto mas fica na gaveta. A canção à medida faz o que nenhuma destas faz sozinha: diz o nome dela, nas vossas palavras, e cabe num envio de telemóvel.

Opção Fala da avó pelo nome Pronta a tempo do dia 1 Fácil de enviar aos primos
Songive Sim, com o nome e as expressões dela Dias, não semanas Sim, ficheiro no telemóvel
Músico conhecido Sim, se tiver tempo Depende da agenda Depende
Montagem de fotografias Não, música genérica Trabalhoso Sim
Playlist das músicas dela Não Imediato Sim
Texto à mão Sim Imediato Difícil

O que escrever na caixa sobre ela?

  1. O nome e o tratamento. Escreva como lhe chamavam de verdade — «avó Lurdes», «a vó Zéfa», «a bisa». O diminutivo que a família usava vale mais do que o nome do bilhete de identidade, porque é esse que todos reconhecem ao ouvir.

  2. Uma coisa que ela fazia com as mãos. O arroz-doce, a renda, a horta, o café que ninguém pedia e aparecia sempre. Um gesto concreto ancora a canção na realidade. Por exemplo: «Fazia filhoses no Natal e guardava as primeiras para o neto mais novo.»

  3. Uma expressão dela. As frases que ficaram. «Vai com Deus», «comes tão pouco», «isso não se faz». Uma expressão cantada traz a voz dela de volta sem ninguém ter de a imitar.

  4. Para quem é e onde vai ser ouvida. Diga-nos que é para o almoço de Todos os Santos e que vai ser enviada aos primos de fora. E um pedido nosso, com delicadeza: não liste doenças nem o modo como ela partiu, e não a toque junto à campa — esta canção é da mesa, é para rir e chorar entre a família que ficou.

Perguntas frequentes

Devo tocar a canção junto à campa no cemitério?▾

Não aconselhamos. O cemitério pede silêncio e recolhimento, e uma música ali soa deslocada. A canção vive no almoço, no carro a caminho de casa ou no telemóvel enviado aos que não vieram — é para a família reunida, não para a sepultura.

A tempo de 1 de Novembro ainda vou?▾

Sim, se não deixar para a véspera. A canção fica pronta em dias, não em semanas, e passa pela sua revisão da letra antes de ser gravada. Para a ter tranquilamente ao almoço, convém escrever o retrato dela uns dias antes.

O que não devo incluir no texto sobre a minha avó?▾

Evite listar doenças ou descrever como ela partiu. Uma homenagem à avó falecida fica mais verdadeira se guardar o que ela foi em vida — as receitas, as frases, o modo de cuidar — e não os últimos tempos. A canção é para lembrar, não para doer.

Posso enviar a canção aos primos que vivem fora?▾

Pode, e é uma das razões mais comuns para a fazer. Chega como ficheiro no telemóvel, pronto a ouvir ou a reenviar. Para quem não pôde vir ao almoço de Todos os Santos, receber a avó cantada pelo nome é uma forma de estar à mesa à distância.

A canção serve para outras datas de luto, como os Fiéis Defuntos?▾

Serve. Muitas famílias ouvem-na também a 2 de Novembro, na missa de aniversário ou simplesmente num domingo em que dá saudade. Depois de feita, fica guardada e volta sempre que a família precisar de a ouvir.