A parent in their fifties and their grown child in Lisbon street with laundry overhead

prenda para o filho que estuda fora: uma canção de outubro

Por Tiago Ferreira — Compositora da equipa Songive.

Atualizado 8 min de leituraPara quem

Uma prenda para o filho que estuda fora pode ser uma canção de três minutos sobre o quarto arrendado, o saco de roupa lavada e o primeiro fim de semana que ele não veio a casa. Contamos aqui uma história do início ao fim. É uma coisa que ele pode pôr a tocar sozinho, sem ter de ligar.

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Uma canção que fizemos de verdade, com o nome de quem a recebeu — ouça:
Criar a canção

Uma prenda para o filho que estuda fora pode ser uma canção feita à medida sobre a casa que ele deixou e a cidade onde agora acorda. Uns pais contam-nos quem ele é — a partida em setembro, a praxe, o quarto arrendado — e nós devolvemos uma canção curta com o nome dele. Serve para outubro, quando a saudade aperta dos dois lados e ninguém sabe bem como dizer.

O que é: uma canção personalizada é uma música escrita de propósito para uma pessoa, a partir do que quem a oferece nos conta sobre ela. Não é uma versão de um êxito nem um postal com música por cima. É uma faixa própria, com o nome e a história de quem a recebe, pronta em pouco tempo e em português de Portugal.

A história: setembro leva o Tomás para Coimbra

Vieram ter connosco uns pais de uma vila do Alentejo. O filho, a quem vamos chamar Tomás, saiu de casa em setembro para o primeiro ano em Coimbra. Primeiro da família a ir para a universidade. A mãe escreveu-nos num domingo à noite, naquela hora em que a casa fica grande de mais.

O que nos contaram foi simples e era tudo. O quarto dele ficou com a cama feita e vazia. O Tomás arrendou um quarto perto da Sé Velha, com três colegas que ainda mal conhece. Passou a praxe, andou com a fita e a capa na Latada, mandou fotografias à mãe de madrugada. E depois veio o primeiro fim de semana em que não apanhou a camioneta para casa — ficou a estudar, disse ele, mas os pais perceberam que também já estava a ganhar a cidade.

Havia um ritual que atravessava tudo: o saco. Todas as semanas ia e vinha um saco com roupa lavada, um tupperware de favas, às vezes um bolo. O pai levava-o à paragem. A mãe punha sempre qualquer coisa a mais, por via das dúvidas. Esse vaivém era a forma de dizerem «pensamos em ti» sem o dizerem.

O que lhes pedimos antes de escrever

Antes de escrever uma única linha, pedimos aos pais três ou quatro coisas concretas. Não queríamos adjetivos — queríamos cenas.

Perguntámos o nome da paragem onde o pai o deixava. Perguntámos o que a mãe metia sempre no saco. Perguntámos uma frase que o Tomás dizia em miúdo e que eles ainda repetem entre os dois. E perguntámos o que não lhe conseguiam dizer ao telefone — porque é quase sempre aí que está a canção.

A resposta deles foi direta. O que não conseguiam dizer era: fica. Fica e volta quando puderes, mas sobretudo fica inteiro. A canção nasceu daí.

Como chegámos à canção, passo a passo

Primeiro, os pais escreveram-nos um texto curto. Não precisaram de saber nada de música. Contaram a partida de setembro, o quarto perto da Sé Velha, o saco da roupa, o fim de semana em que ele não veio. Levou-lhes dez minutos. É exatamente o que qualquer pessoa faz em /pt-PT/jobs/create: um texto sobre a pessoa, por palavras próprias.

Depois, receberam a letra para ler primeiro. Mandámos-lhes os versos antes de haver som. A mãe pediu uma troca — queria o nome da vila lá dentro, não só «casa». Trocámos. Esse ida e volta é importante; a letra tem de soar à família, não a nós.

Por fim, receberam a canção terminada. Uma faixa de três minutos, em português, com o nome do Tomás, pronta para descarregar e mandar. Fizemos-a com a calma de uma balada de outono, nada de festa. Mandaram-lha numa terça à noite, com uma mensagem de duas linhas. Ele ouviu sozinho, no quarto. Ligou no dia seguinte. É esse o ponto: a canção disse o que o telefonema não conseguia abrir.

A faixa que pode ouvir aqui em baixo não é a do Tomás — essa fica entre eles — mas é do mesmo feitio: construída a partir de meia dúzia de linhas que uma família nos mandou, com o nome de quem a recebeu lá dentro. Serve para perceber o tom.

Porque é que uma canção resulta melhor do que uma chamada

Uma canção resulta aqui por uma razão simples: pode ser ouvida em silêncio, sem obrigar ninguém a responder. Num primeiro outubro fora de casa, um filho nem sempre quer falar da saudade ao telefone. Mas põe os auscultadores e ouve. E ouve outra vez.

Prenda Fala da saudade sem obrigar a chamada Leva o nome e a história dele Feita de propósito para ele Pronta em dias
Canção Songive Sim Sim Sim Sim
Songfinch Sim Sim Sim Mais lenta
Suno (faça você) Depende Só se souber guiar Sim Sim
Playlist de casa Pouco Não Não Sim
Carta à mão Sim Sim Sim Sim

A carta à mão é linda e continua a valer a pena. A playlist com as músicas de casa aquece, mas não diz o nome dele nem conta a paragem da camioneta. Uma ferramenta como o Suno deixa-o fazer tudo sozinho, mas tem de saber conduzir cada verso. O Songfinch faz canções à medida com boa qualidade, embora costume demorar mais. A Songive escreve a mesma coisa em português de Portugal, com o nome e a história dentro, e entrega depressa.

O que meter no texto sobre ele

  1. Um lugar concreto da partida. A paragem onde o pai o deixa, a estação da camioneta, a porta de casa fechada atrás dele. «Deixei-te na paragem das sete e meia» vale mais do que «foste estudar para longe».
  2. O ritual que vos liga à distância. O saco de roupa lavada, o tupperware de favas, a chamada de domingo. Diga o que a mãe mete sempre a mais. São estes gestos que fazem a canção reconhecer-se.
  3. Uma frase que só existe na vossa casa. Aquilo que ele dizia em miúdo, a alcunha que ninguém de fora percebe, o que se grita do fundo das escadas. Uma linha dessas e a canção deixa de ser genérica.
  4. O que não lhe conseguem dizer ao telefone. Normalmente é a parte mais difícil e a mais importante. Para estes pais era «fica inteiro e volta quando puderes». Escreva-o cru; nós tratamos de o pôr a soar bem.

Perguntas frequentes

Qual é a melhor prenda para o filho que estuda fora no primeiro ano?▾

Uma canção personalizada com o nome e a história dele resulta bem no primeiro outubro longe de casa. Diz a saudade sem obrigar a uma chamada e ele pode ouvi-la sozinho no quarto, as vezes que quiser. É mais pessoal do que um objeto para a estante.

O que devo escrever sobre o meu filho para a canção sair à família?▾

Escreva cenas, não adjetivos. A paragem onde o deixou, o que vai no saco todas as semanas, uma frase que só existe lá em casa e aquilo que não lhe consegue dizer ao telefone. São estes pormenores que fazem a canção soar a vocês e não a qualquer um.

Quanto tempo demora a receber a canção?▾

Poucos dias, e muitas vezes bem menos. Primeiro recebe a letra para ler e pedir trocas, e só depois a faixa terminada. Dá tempo de a mandar ainda em outubro, quando a saudade aperta mais dos dois lados.

A canção é mesmo em português de Portugal?▾

Sim, escrevemos em português de Portugal, não numa tradução. O nome da vila, a forma de falar e os gestos de casa entram na letra tal como os descreve. Isso faz toda a diferença para um filho a ouvir longe.

Posso mudar a letra se alguma coisa não estiver certa?▾

Pode, e é parte do processo. Enviamos a letra antes de haver som justamente para a poder ajustar — trocar uma palavra, acrescentar o nome do lugar, corrigir um pormenor. A canção tem de soar à vossa família antes de seguir para ele.