A mother in her fifties and her adult child in family dining room with a crocheted tablecloth

prenda para a madrinha: a canção que o afilhado nunca lhe disse

Por Tiago Ferreira — Compositor na equipa da Songive.

Atualizado 8 min de leituraPara quem

A madrinha dá há décadas e quase nunca recebe de volta. Uma canção inverte isso num almoço de aniversário. Pegámos num briefing de um afilhado adulto e abrimo-lo linha a linha.

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Uma canção que fizemos para um aniversário — fica o exemplo:
Criar a canção

Uma prenda para a madrinha pode ser uma canção feita a partir de meia dúzia de linhas que o afilhado escreve sobre ela: o batizado, a comunhão, os exames que ela acompanhou de longe, a cozinha onde há sempre lugar à mesa. Em Portugal o laço da madrinha estende-se pela vida fora, muitas vezes porque é também tia, e por isso é uma das pessoas mais fáceis de retratar numa canção — e das mais difíceis de surpreender.

O que é: uma canção personalizada é uma música curta, escrita e cantada de raiz para uma pessoa concreta, a partir daquilo que quem a oferece conta sobre ela. Não é uma versão de um tema existente nem um postal com música por baixo. É uma faixa própria, pronta para ouvir ao telemóvel ou pôr a tocar à mesa.

Neste artigo não vamos falar em teoria. Temos um briefing real à frente — de um afilhado adulto, para a madrinha que fez anos — e vamos lê-lo como o lemos quando chega à nossa secretária: à procura do que vale a pena cantar.

O briefing que o afilhado nos enviou

Este é o texto que recebemos, com os nomes trocados e um pouco encurtado. É curto de propósito. Os melhores quase sempre são.

«A minha madrinha chama-se Fernanda, é também irmã da minha mãe. Fez 60 anos. Batizou-me, levou-me à primeira comunhão e esteve em todas as entregas de notas em que os meus pais não puderam ir. Vive em Bragança, numa casa com cheiro a sopa de castanha o ano inteiro. Dá-me sempre uma prenda no Natal e nunca a deixei retribuir à altura. Queria uma canção para pôr a tocar no almoço de anos dela, no domingo.»

Seis frases. Dá para uma canção inteira, e sobra.

O que tirámos dele, linha a linha

A resposta curta: tudo o que conta aqui não é a biografia, é a dívida afetiva. «Dá-me sempre e nunca a deixei retribuir à altura» é a canção toda.

A relação dupla

Madrinha e tia ao mesmo tempo. Isto muda o tom. Não escrevemos uma figura distante de cerimónia religiosa — escrevemos alguém de família, que esteve na mesa de domingo e na capela. O verso de abertura vive dessa dupla presença: a mulher que a segurou ao colo na pia batismal é a mesma que lhe guardou o lugar ao almoço.

Os marcos que ela acompanhou

Batizado, comunhão, entregas de notas. São três degraus de uma vida e cada um dá uma imagem concreta. Não os enfiamos todos no mesmo verso — escolhemos o das notas, porque é o inesperado. Qualquer madrinha vai a um batizado. A que aparece quando os pais não podem é outra coisa, e é aí que a canção aperta.

O lugar

Bragança e a sopa de castanha. Um sítio verdadeiro ancora uma canção melhor do que dez adjetivos. Em vez de «a tua casa acolhedora», cantamos a casa que cheira a castanha em pleno agosto. Quem conhece a Fernanda reconhece-a à primeira frase; quem não conhece sente que ela existe mesmo.

A inversão

O coração do briefing é a frase sobre a prenda de Natal que nunca foi retribuída. A canção é precisamente isso: a retribuição. Dizemo-lo sem rodeios a meio da música — chegou a vez de ela receber. É o tipo de volta que fica bem numa canção e fica estranho dito em voz alta ao almoço, e é por isso que a canção existe.

A faixa de exemplo aqui em cima foi um aniversário e começou de um briefing parecido com este — poucas linhas, um nome, um lugar. Serve bem para ouvir o tom antes de escrever o seu.

Como se faz, do seu lado

1. Escreve um briefing curto sobre ela. Quatro a seis frases chegam. Quem é, o que vos une, um lugar, um episódio que só vocês os dois carregam. O afilhado da Fernanda não escreveu uma redação — escreveu seis frases e uma delas fazia o trabalho todo.

2. Recebe a letra para aprovar. Antes de haver música, vê o texto. Se a sopa devia ser de castanha e não de grão, corrige-se ali. Se preferir que a canção não diga «60 anos» em voz alta, tira-se. A letra é sua para ajustar antes de seguir.

3. Recebe a canção pronta. Pouco depois chega a faixa terminada, para descarregar e pôr a tocar. No caso da Fernanda, o afilhado pô-la a dar no fim do almoço de domingo, antes do bolo. O telemóvel ligado ao altifalante da sala chegou perfeitamente.

Pode começar o seu em a página de criação da Songive, quando tiver as suas frases prontas.

Canção, postal ou playlist: o que muda

Antes da tabela, vale a pena dizer porque é que uma canção ganha a uma playlist para este caso concreto. Uma playlist é feita de músicas de outras pessoas sobre outras vidas — nenhuma menciona Bragança nem a sopa de castanha. Um postal diz o que sente mas não se pode pôr a tocar à mesa. Uma versão gravada de um tema conhecido muda a voz mas não a letra, por isso continua a não falar dela. Serviços como o Songfinch ou o Suno chegam a resultados próximos por caminhos diferentes; comparámo-los noutro sítio. Para a madrinha que nunca recebe de volta, o que importa é ter uma coisa que seja só dela e que caiba num almoço de domingo.

Opção Fala dela pelo nome Pronta para o almoço Fica para guardar
Canção Songive Sim Em pouco tempo, em português Sim, faixa própria
Playlist Não Sim Não é dela
Postal escrito à mão Sim, mas sem tocar Não Sim
Versão de um tema Não, letra alheia Depende Parcial

Para comparar com outras formas de oferecer música, veja as alternativas que reunimos ao Songfinch e quando faz sentido uma canção em vez de uma versão.

O que pôr no campo «sobre ela»

  1. O laço exato. Diga se é só madrinha ou também tia, prima, vizinha de sempre. «Madrinha e irmã da minha mãe» posiciona a canção num segundo. Sem isso, escrevemos no escuro.

  2. Um marco que ela carregou por si. Não a lista toda — um. As entregas de notas a que ela foi no lugar dos pais valem mais do que três datas de cerimónia enfiadas num verso.

  3. Um lugar ou um cheiro concreto. A cozinha em Bragança, a sopa de castanha, o banco da igreja da terra. Um pormenor verdadeiro faz a canção soar a ela e não a uma madrinha qualquer.

  4. A coisa que nunca lhe disse. Para a Fernanda era a prenda nunca retribuída. Para si pode ser outra — mas é quase sempre a frase que lhe custa dizer de viva voz. É essa que a canção diz por si. Se ela for das que tratam o cão como um filho, hoje é Dia Mundial do Animal e até isso cabe numa linha.

Perguntas frequentes

O que é uma boa prenda para a madrinha que já tem tudo?▾

Uma canção feita só para ela, porque não é uma coisa que se compre em loja. A madrinha que já recebeu flores, lenços e perfumes não tem uma música que a nomeie e conte a vossa história. É a prenda que não se repete.

A canção serve se a madrinha for também tia?▾

Serve, e fica melhor. O laço duplo é um dos pormenores mais fortes para uma letra, porque junta a cerimónia do batizado à mesa de domingo. Basta dizer-nos essa relação no briefing e ela aparece logo na canção.

Preciso de saber música ou escrever bem para encomendar?▾

Não precisa de nada disso. Escreve quatro a seis frases simples sobre ela em linguagem do dia a dia e o resto é connosco. O afilhado da nossa história enviou seis frases sem qualquer rima.

Dá tempo de ter a canção pronta para o almoço de anos no domingo?▾

Em geral sim, se encomendar com alguns dias de antecedência. Recebe primeiro a letra para aprovar e, pouco depois, a canção terminada para descarregar. Convém não deixar para a véspera do almoço.

Posso pôr a canção a tocar à mesa sem complicações?▾

Pode. Recebe uma faixa para descarregar ao telemóvel e ligar ao altifalante da sala, como qualquer música. No caso da Fernanda, o afilhado pô-la a dar no fim do almoço, antes do bolo.